Não sempre, mas muitas vezes tenho a sensação de estar meio desconectado das outras pessoas, em relação à música. Parece que ninguém ouve o mesmo som que eu. Quero dizer, o mesmo estilo de música, os mesmos grupos e cantores, os mesmos discos, as mesmas músicas. Meus amigos ainda não conhecem aquele som. Ou se conhecem, não acham nada de mais. Outras vezes sou eu que estou gostando de algo que os outros já ouviram até enjoar. Como quando tive uma pequena fase Legião Urbana. Chorava ouvindo Pais e filhos e pensava : « agora é que eu entendi essa letra ! » Não tinha nem coragem de contar para meus amigos, pois eles já haviam tido aquele momento há tempos. Até tirei Meninos e meninas no violão, mas só a tocava quando estava sozinho.
Temos o momento certo para gostar de determinado som, então tudo bem. Cada um com seu próprio tempo. Mas eu gostaria tanto de poder dividir mais com os outros o som que gosto… Quando enjoei de ouvir som pesado, comecei a ouvir Jethro Tull, King Crimson, Yes, mas não encontrava ninguém que curtisse aquele som. Ficava maravilhado com verdadeiras obras de arte como o Living in the past, Fragile, Atom heart mother e outros tantos, mas não tinha com quem dividir aquele sentimento. Felizmente mais tarde acabei encontrando alguns com os mesmos gostos.
Quando comecei a gostar realmente de Beatles, passei cerca de um ano ouvindo seus discos. Ouvia dez vezes o mesmo disco, e a cada audição percebia melodias, nuances que não havia percebido antes. Porém, além de mim e de outro amigo na mesma fase, ninguém mais tinha vontade de ficar ouvindo o disco branco sem parar. Ficávamos ouvindo e discutindo se era o Lennon, o Paul ou o George que estava cantando. As vezes encontrávamos alguém que dizia : « Ah, claro ! Adoro Beatles ! » Mas nos decepcionávamos ao concluir que era só uma daquelas pessoas que conhecem Twist and shout daquele filme ou então Help de alguma coletânea. Nós gostávamos de Fixing a hole, Long long long, I’m only sleeping, She’s so heavy, etc.
Quando cheguei na França comecei a coletar informações, nomes para ouvir. Logo encontrei grandes artistas, grandes discos, mas parece que os franceses não os conhecem. Não foi uma só vez que a pessoa com quem converso sobre música me diz que não conhece esse tal de Thomas Dutronc, ou que não conhece as músicas do Gainsbourg (engraçado que fumar como o Gainsbourg todo mundo sabe). Tudo bem, a música não é o forte deles mesmo.
O resultado disso é que acabei me voltando para minhas origens. Sabe quando você já experimentou um monte de coisas e tem vontade de reencontrar suas raízes ? No meu caso não estou reencontrando-as, mas descobrindo-as. Tirando algumas excessões, nunca ouvi muito música brasileira. As vezes até tentava, mas o negócio não pegava. Talvez fosse preciso mesmo estar aqui do outro lado do oceano para me interessar mais. Começo a ouvir discos que meus amigos do Brasil já ouviram muito, então continuo com essa sensação de estar deslocado musicalmente.
“Mas não tem nada não, tenho meu violão”




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